A CASA DAS AURORAS

Mas quando vem a noite e a noite fatalmente vem, quando as folhas transparentes dos choupos se iluminam de tons dourados e dançam e vibram numa quente alegria sob a grande bola do Sol que ainda ilumina o crepúsculo e contorna as nuvens vermelhas pintando o céu quase escuro, é nessa altura que a casa se ilumina e quem passar na rua poderá sentir, ouvir e perceber, se quiser, os sons acetinados das conversas das mulheres.

São fantasmas.

Elas contam uma história. Momentos das suas vidas quando por cá andaram. Dizem por aqui que são pelo menos três, talvez quatro ou cinco ou seis.

Poder ouvir estas mulheres será conhecer a vida toda, começar a viver quando as pessoas lá fora já adormeceram, quando o lugar de Quintas se torna num minúsculo pontinho de luz nesta vasta solidão do universo.

Lá dentro da Casa, numa das salas, exactamente ao centro dessa sala uma mesa redonda. Em cima da mesa seis chávenas transparentes e um grande bule de chá. À volta da mesa seis cadeiras. Nas cadeiras, sentadas, seis figuras femininas: uma mulher muito velha; uma de meia-idade, chamando-se de meia-idade mais ou menos cinquenta anos; outra que teria à volta de uns quarenta; uma outra com trinta e cinco; outra de dezanove, vinte anos e a última era ainda uma criança.

Delicadamente, cada uma bebia o seu chá. Não se conheciam. Todos os dias apareciam novas mulheres. Vinham umas, iam outras, vinham umas, iam outras, vinham umas, iam outras e isto pelo andar dos tempos, no rolar da eternidade. Fantasmas. Apenas fantasmas…

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